Sonetos de Pierrete a Colombina & Arlequinal (fragmentos)
por Lady Craknel

I.

Amada, por amar-te mais que a mim
é que me faço, uma vez mais, menina;
nos braços teus me enlaço, pequenina,
e acolho-me em teu seio; e sinto assim


que rompes meus refreios, e o meu fim
se perde em teus abismos; bailarina
que salta no meu corpo: Colombina,
em mim teu palco – vem! Que seja, enfim,

meu dorso teu repasto e eu, amazona,
cavalgue nos teus pêlos, toda nua,
teu corpo com meu corpo entrelaçado;


e se abra no meu peito, ingente, à tona,
o amor que medra enquanto continua
o nosso galopar desabalado.

III.

Fui eu quem te envolveu na serpentina
no meio do salão, de madrugada.
Fui eu. Que estava louca, enamorada
por ti – por teu olhar de messalina,

por tua voz suave e sibilina,
por teu andar de santa devassada...
e eu vi quando chegaste. E fui – fadada
a dar meu corpo a ti. Ah, Colombina,

tudo o que eu não sabia – tu ensinaste:
guiaste-me na estreita disciplina
que faz da amiga a mais ardente amada;

por este não-sei-quê que despertaste,
fizeste, ao fim, de mim, que era menina,
devassa amante. A puta. A mais safada.

ARLEQUINAL



Ata mais forte a corda que enlaça os lânguidos pulsos e que amarra as trêmulas pernas. Toca: roça a pele clara e quente desta presa que, submissa, ora se entrega ao teu prazer. Na mão tens o látego: ergue-o. Exibe-o aos seus olhos que refugam, plangentes; empunha-o, faze-o vibrar, mas sem ainda tocar a tez que fulge as gotas de suor. É tua agora: tens todo o tempo para arrancar do pequeno corpo cada um dos arroubos que apenas adivinhaste no tempo em que a vias na Avenida (...)