Obscenae Fabulae
por Alitta Doritis
I. DE GALATÉIA
Moldando-me no opaco e vil marfim,
ergueu o artista a esposa mais perfeita:
meus seios rijos fez, cintura estreita,
a boca, fez-me rubra com carmim;
e ao ver-me, apaixonou-se – e quis de mim
o amor, embora estátua eu fosse. Afeita
à carne ardente, esta alva e contrafeita
marfínea tez volveu-se; e vi-me, ao fim,
por tanto que senti seu quente corpo
colado à minha pele branca e fria,
cobrindo-me de beijos, cego e absorto,
não mais sendo marfim, mas carne viva:
e agora fode o artista, arfante e louco,
a esposa outrora em presas esculpida.
II. DE DÂNAE
Encharca-me a áurea chuva que me cobre
e escorre por meus seios, meus cabelos,
traçando ardente trilha entre meus pêlos,
num rio que em meu ventre claro corre
e causa-me este enleio, que me sobe
por sob a pele, e na alma faz novelos;
rompendo as fracas súplicas e apelos,
meu corpo adolescente enleva e torce;
e minha mão infante às pernas leva,
roçando a quente pele, achando as coxas –
meus dedos, numa trêmula ansiedade,
rasgando-me a inocência, em dor primeva,
cravando-me nas coxas lassas, frouxas,
as gotas que farão do ouro a deidade.
VI. DAS SABINAS
Levadas para terras devolutas
por Rômulo, rei pérfido e perjuro,
nós, presas na erma urbe, entre altos muros,
debalde resistimos: fracas lutas
as nossas contra as mãos infames, brutas,
de escravos, homens de semblantes duros,
ladrões que os nossos corpos, antes puros,
foderam como aos corpos de ímpias putas.
E, cegos de desejo, esses devassos
tomaram-nos, impúberes, nos braços,
até que, enfim, tombassem de modorra –
e escavam nossos corpos violados
infindas gerações de vis bastardos
nos ventres inundados de atra porra.



