Publicado em dezembro de 2008, Esparsa Erótica reúne diversos poemas compostos ao longo de dois anos, entre 2006 e 2008. As várias obras que compõem o livro nasceram, em sua maior parte, a partir de exercícios estilísticos e experiências formais, o que explica a heterogeneidade perceptível no volume. Os diversos estilos explorados na obra, personificados em seis heterônimos, representam diferentes dicções possíveis para tratar de um mesmo tema: o erotismo em suas várias manifestações.

Alguns poemas do livro foram republicados na revista Poesia Sempre (n° 32, ano 16, 2009), da Biblioteca Nacional; outros foram lidos pelo poeta português António Galrinho no bar La Bohème, em Setúbal (Portugal), em 24 de junho de 2009 (para ouvir a leitura, clique aqui).

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Leia abaixo uma pequena seleção de poemas de Esparsa Erótica. Para obter gratuitamente a obra em formato pdf, clique aqui.

Tríptico sobre Hokusai (fragmento)
por Henrique Marques-Samyn
III.

Nos olhos o oceano. Ela pressente
que se aproxima – e abre-se: e ele vem.
Desliza em seu silêncio. Então se estende:
qual braços – que a dominam: presos pulsos,
atadas pernas – rudes: com violência,
violam-na. Seu corpo é dor:

espasmo
desfeito em gozo
– túrgidos tentáculos
que tocam os flébeis lábios deflorados.
Nos olhos o oceano,
então se estende:
é sua. A lua cobre-a: nua – e qual
fosse ela como ele, alva desliza
e o corpo lança ao mar.
A onda.
O sal.
Ensaio sobre um corpo (fragmento)
por Vergílio D.

d) Não me negue nunca os cálidos recantos
que em seu corpo me acalentam (alvos braços,
pernas quentes, doces lábios): eu bendigo
os que a mim deram o seu corpo, sejam deuses
ou demônios (que me importa?) Eu quero apenas
este estar aqui – colado à pele ardente
aquecida pelo sol (que no seu peito

você vela) mas que a mim também aquece
mesmo quando estou distante do seu leito,
porque tanto já bebi destes seus mares
que ora vivo assim: eterno embriagado
do seu corpo e já não sei nada de mim:
foi-se em suas vastas águas meu passado
me procuro e não mais lembro de onde eu vim.

Obscenae Fabulae
por Alitta Doritis

I. DE GALATÉIA

Moldando-me no opaco e vil marfim,
ergueu o artista a esposa mais perfeita:
meus seios rijos fez, cintura estreita,
a boca, fez-me rubra com carmim;

e ao ver-me, apaixonou-se – e quis de mim
o amor, embora estátua eu fosse. Afeita
à carne ardente, esta alva e contrafeita
marfínea tez volveu-se; e vi-me, ao fim,

por tanto que senti seu quente corpo
colado à minha pele branca e fria,
cobrindo-me de beijos, cego e absorto,

não mais sendo marfim, mas carne viva:
e agora fode o artista, arfante e louco,
a esposa outrora em presas esculpida.

II. DE DÂNAE

Encharca-me a áurea chuva que me cobre
e escorre por meus seios, meus cabelos,
traçando ardente trilha entre meus pêlos,
num rio que em meu ventre claro corre

e causa-me este enleio, que me sobe
por sob a pele, e na alma faz novelos;
rompendo as fracas súplicas e apelos,
meu corpo adolescente enleva e torce;


e minha mão infante às pernas leva,
roçando a quente pele, achando as coxas –
meus dedos, numa trêmula ansiedade,

rasgando-me a inocência, em dor primeva,
cravando-me nas coxas lassas, frouxas,
as gotas que farão do ouro a deidade.

VI. DAS SABINAS

Levadas para terras devolutas
por Rômulo, rei pérfido e perjuro,
nós, presas na erma urbe, entre altos muros,
debalde resistimos: fracas lutas

as nossas contra as mãos infames, brutas,
de escravos, homens de semblantes duros,
ladrões que os nossos corpos, antes puros,
foderam como aos corpos de ímpias putas.

E, cegos de desejo, esses devassos
tomaram-nos, impúberes, nos braços,
até que, enfim, tombassem de modorra –

e escavam nossos corpos violados
infindas gerações de vis bastardos
nos ventres inundados de atra porra.

Vênus domada (fragmento)
por Jan Moreno

cena #1

Na cela encerrada,

à espera.
Presa, a indócil escrava
entregue à alheia vontade.

Cobre-lhe a venda os olhos;
cerra-lhe a boca a mordaça.

Exposto o pávido corpo:

presa ao desejo,
ela aguarda.

cena #4

Exausta, a serva ofegante sobre o solo,

ferida e arfante.
Na carne umedecida,
mesclam-se a cera e o suor

Já nada vê e nada sente:

silentes, saciados sentidos
jazem no corpo dormente.
Qual fera submissa e domada,
na cela adormece –

à espera,

dolente.
Femínea fronteira
por Calista Serpe

VAMPIRIA

E quando enfim meus lábios agasalham

o que em ti se faz rijo por desejo, e quando enfim

consinto deleitar-te com meus beijos

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e trêmulo pressinto que te elevas

ao vértice do gozo, mais te enlaço

com minha língua: e, junto aos teus joelhos,

entrego-me a ti como um róseo receptáculo

e arranco de teu sumo a essência que me alenta

.............................................................

e enquanto finalmente te prostras, exausto,

sorvo, silente e sedenta,

inteira tua semente.


ÊXTASE ÁUREO

Espero-te: que a minha fonte aguarda. O meu segredo

oculto numa concha. Há nela o mar:

mais áureo mar. Em mim todo o oceano

contido. Pode ali caber inteiro?

Guardado. Numa concha úmida e rósea

que em si fabula o ouro. E freme. E pura

emerge: áurea torrente. E o corpo treme:

eis meu dourado avesso a saciar

a sede que se abriga no teu peito.

Sonetos de Pierrete a Colombina & Arlequinal (fragmentos)
por Lady Craknel

I.

Amada, por amar-te mais que a mim
é que me faço, uma vez mais, menina;
nos braços teus me enlaço, pequenina,
e acolho-me em teu seio; e sinto assim


que rompes meus refreios, e o meu fim
se perde em teus abismos; bailarina
que salta no meu corpo: Colombina,
em mim teu palco – vem! Que seja, enfim,

meu dorso teu repasto e eu, amazona,
cavalgue nos teus pêlos, toda nua,
teu corpo com meu corpo entrelaçado;


e se abra no meu peito, ingente, à tona,
o amor que medra enquanto continua
o nosso galopar desabalado.

III.

Fui eu quem te envolveu na serpentina
no meio do salão, de madrugada.
Fui eu. Que estava louca, enamorada
por ti – por teu olhar de messalina,

por tua voz suave e sibilina,
por teu andar de santa devassada...
e eu vi quando chegaste. E fui – fadada
a dar meu corpo a ti. Ah, Colombina,

tudo o que eu não sabia – tu ensinaste:
guiaste-me na estreita disciplina
que faz da amiga a mais ardente amada;

por este não-sei-quê que despertaste,
fizeste, ao fim, de mim, que era menina,
devassa amante. A puta. A mais safada.

ARLEQUINAL



Ata mais forte a corda que enlaça os lânguidos pulsos e que amarra as trêmulas pernas. Toca: roça a pele clara e quente desta presa que, submissa, ora se entrega ao teu prazer. Na mão tens o látego: ergue-o. Exibe-o aos seus olhos que refugam, plangentes; empunha-o, faze-o vibrar, mas sem ainda tocar a tez que fulge as gotas de suor. É tua agora: tens todo o tempo para arrancar do pequeno corpo cada um dos arroubos que apenas adivinhaste no tempo em que a vias na Avenida (...)
O dizer da carne (fragmentos)
por Licia Gris

2.

Mãos que tomam entre si diversas mãos
quentes lábios que se perdem noutros lábios:
todo o espaço a dissipar-se num perfume
que arremessa a lucidez de encontro à carne

4.

Nada que possa contê-lo:

este enlevo que toma cada poro
e causa inveja mesmo aos deuses

5.

Para mais nada há nome:

tudo é agora imenso
e imensamente compreensível.